Espetáculo “Repertório N.3” se apresenta no Gomeia Galpão Criativo, articulando a dança como prática de autodefesa

Foto: Fe Avilla

Como elaborar uma dança de autodefesa? Essa é a pergunta que atravessa Repertório N.3, trabalho de Davi Pontes e Wallace Ferreira que chega ao Rio de Janeiro neste mês, em meio a uma intensa circulação internacional. Em cartaz na quinta-feira (22), às 20h, no Gomeia Galpão Criativo. A entrada é gratuita. 

Última parte da trilogia Repertório, iniciada em 2018, a peça investiga a violência como condição histórica e estrutural que atravessa corpos negros e dissidentes, propondo a dança como um treino de autodefesa física, imaginária e epistemológica. Concebido, dirigido e performado pelos dois artistas, o trabalho mobiliza elementos como mimese, representação e estudos de imagens coreografadas por corpos dissidentes, criando um arquivo de ações que elabora resistências e modos de permanência no mundo.

A pesquisa parte do reconhecimento de que a violência não é incólume aos corpos negros e que cada corpo desenvolve estratégias próprias de defesa. A partir disso, Repertório N.3 fabrica possibilidades coreográficas que confrontam violências autorizadas e estruturais, posicionando o corpo como ferramenta política e poética capaz de interromper a lógica cruel que sustenta a sociedade moderna desde o século XIX.

A obra teve sua estreia nacional na 35ª Bienal de São Paulo, em dezembro de 2023, e desde então vem consolidando Davi Pontes e Wallace Ferreira como dois dos artistas brasileiros mais presentes no circuito internacional da dança contemporânea. Em 2025, a dupla integrou a programação da Bienal de Dança de Lyon, na França, um dos maiores festivais de dança do mundo, além de ter apresentado Repertório N.3 no Kinani, Bienal de Dança na África, em Maputo, Moçambique.

Foto: Fe Avilla

Após dois anos de estreia e circulação internacional, a estreia carioca aconteceu em novembro de 2025, dentro da programação do Festival Panorama, uma das principais plataformas de dança contemporânea do país. A atual circulação no Rio de Janeiro, viabilizada pela Política Nacional Aldir Blanc, PNAB, acontece entre compromissos internacionais, após as apresentações no estado, a dupla segue para o Chile, onde apresenta a obra no Santiago OFF, um dos festivais mais relevantes de artes cênicas da América Latina.

Segundo Davi Pontes, apresentar o trabalho no Rio de Janeiro carrega uma dimensão particular. “A gente começou esse trabalho no Rio há muito tempo. Fazer no Rio é sempre diferente de fazer em outro lugar; tem uma coisa da cidade, do jeito… não sei explicar exatamente. É muito especial estar aqui. É um projeto que a gente já apresentou mais de cem vezes, e é curioso porque sempre existe um pouco de ansiedade. Fico pensando como um trabalho feito tantas vezes ainda provoca isso. Acho que é porque a gente nunca sabe exatamente o que vai ser, já que depende muito do público. Por mais que a gente saiba o que fazer e quando fazer, muitas decisões são tomadas na hora, e o que acontece depende muito da resposta do público. Então, pra gente, é sempre desafiador, no mínimo.”

Wallace Ferreira também comenta sobre os desafios de apresentar a obra em sua cidade de origem. “É muito desafiador apresentar o trabalho no Rio. Ele diz muito sobre a gente dentro do contexto do Rio de Janeiro, não digo nem só do Brasil. A gente quase nunca apresenta aqui, quase nunca apresenta no país, então fazer em casa é um desafio. É apresentar para pessoas que nos conhecem, para pessoas que talvez entendam alguns códigos, que entendam do que a gente está falando quando a gente se move. Então sempre existe esse desafio de qual vai ser a resposta. Mas é um desafio gostoso, de entender e de se colocar em risco. Boa parte do nosso trabalho é o encontro com o público. A gente só sabe o que vai acontecer quando chega aqui, quando se coloca à prova. Então tudo pode acontecer, e a gente nunca sabe o que vai vir.”

Mais do que uma metáfora, Repertório N.3 se afirma como uma prática direta de enfrentamento à violência colonial e racial. A pesquisa, desenvolvida ao longo de mais de cinco anos, posiciona a coreografia como resposta às suas próprias condições ontológicas e políticas, propondo a dança como elaboração tática para redistribuir socialmente a violência e criar estratégias de sobrevivência coletiva.

A circulação de Repertório N.3 tem gestão da Quafá Produções e conta com realização do Governo Federal, Ministério da Cultura, Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Política Nacional Aldir Blanc.

Foto: Fe Avilla

Histórico dos artistas

Dois artistas da dança, nascidos no Rio de Janeiro, se reuniram em 2018 para desenvolver o primeiro projeto, que chamaram de Repertório.

Em 2022, receberam o prêmio ImPulsTanz – Young Choreographers’ Award (Áustria) e, a partir disso, passaram a receber diversos convites para apresentar o projeto em festivais e galerias, como My Wild Flag (Estocolmo), Festival Les Urbaines (Suíça), Arsenic – Centro de Arte Cênica Contemporânea (Suíça), Festival Programme Commun 2024 (Arsenic, Suíça), Sâlmon Festival d’arts vives (Barcelona), Zodiak — Center for New Dance (Finlândia), Panorama Festival (Rio de Janeiro) e Buddies In Bad Times Theatre (Toronto, Canadá).

Foram artistas convidados da 35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do Impossível e, ano passado, realizam uma coprodução com o Arsenic – Centro de Arte Cênica Contemporânea (Suíça) para a criação do Repertório N.3.

Davi Pontes

Artista, coreógrafo e pesquisador. Formado em Artes pela Universidade Federal Fluminense e mestre em Artes (Estudos Contemporâneos das Artes) pela mesma instituição. Foi premiado com o ImPulsTanz – Prêmio de Jovens Coreógrafos 2022 e o Prêmio Artlink – 100 Artistas de Todo o Mundo (2022).

Participou como um dos artistas da 35ª Bienal de São Paulo. Coreografou a obra Variação para o Balé da Cidade de São Paulo e atualmente integra o 38º Panorama da Arte Brasileira (MAM SP).

Desde 2011, apresenta seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais, incluindo Universidade da Pensilvânia (EUA), My Wild Flag (Estocolmo), Pivô (São Paulo), Centro Cultural de Belém (Lisboa), Rua das Gaivotas 6 (Porto), Bienal Sesc de Dança, MITsp – Festival Internacional de Teatro de São Paulo, Festival Les Urbaines (Suíça), Arsenic – Centro de Arte Cênica Contemporânea (Suíça), Galeria Vermelho (São Paulo), Valongo Festival Internacional da Imagem (São Paulo), Museu de Arte do Rio de Janeiro, Programa Rumos Itaú Cultural 2021, Festival Programme Commun 2024 (Arsenic, Suíça), Sâlmon Festival d’arts vives (Barcelona), Zodiak — Center for New Dance (Finlândia), Panorama Festival (Rio de Janeiro), 5ª Mostra de Dança Itaú Cultural (São Paulo), Buddies In Bad Times Theatre (Toronto, Canadá), Mendes Wood DM (São Paulo), além de residências no ImPulsTanz 2022 – [8: tensão] Série de Jovens Coreógrafos (Áustria), La Becque (Suíça), Tanzhaus NRW (Alemanha), Programa de Pesquisa em Arte Pivô, Programa de Residência em Pesquisa de Artes do MAM Rio e Escola Livre de Artes – ELÃ, entre outros.

Dirigiu o filme Delirar o racial em parceria com Wallace Ferreira, obra encomendada pelo Programa Pivô Satélite (2021). Baseada em pesquisa corporal, sua prática enfrenta o desafio constante de posicionar a coreografia e a racialidade em resposta às condições onto-epistemológicas do pensamento moderno. Seu principal projeto consiste em analisar as conjunturas em que a violência se manifesta.

Wallace Ferreira

Coreógrafa, performer e artista visual. Formada pela Escola Livre de Artes da Maré (ELÃ), pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage e bacharel em Dança pela UFRJ. Vencedora do Prêmio ImPulsTanz – Young Choreographers’ Award 2022, realizou residência artística no Instituto Inclusartiz.

Movida pelos desafios de tensionar o presente, desde 2018 apresenta seus trabalhos em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais, como a 35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do Impossível (2023), Liste Art Fair Basel (Suíça), Tanya Bonakdar Gallery (Nova York), Bienal Sesc de Dança, MITsp – Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, Les Urbaines Festival (Suíça), Galeria Vermelho (São Paulo), Valongo Festival Internacional da Imagem (São Paulo), Panorama Festival (Rio de Janeiro), 5ª Mostra de Dança Itaú Cultural (São Paulo), Artfizz – HOA Gallery (EUA), My Wild Flag (Estocolmo), Buddies In Bad Times Theatre (Toronto, Canadá), Mendes Wood DM (São Paulo), Tanzhaus NRW (Alemanha), ArtRio, Lateral Roma, Galeria Jaqueline Martins, SP-ARTE, Display (República Tcheca) e Galeria A Gentil Carioca.

Dirigiu o filme Delirar o racial em parceria com Davi Pontes, obra comissionada pelo Programa Pivô Satélite (2021). Dentro da cultura Ballroom/Vogue, recebeu o título de UpComming Legend Imperatriz da Kiki House of Mamba Negra, atuando em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

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SERVIÇO:

Gomeia Galpão Criativo
Data: 22 de janeiro (quinta-feira)
Horário: 20h
Endereço: Rua Dr. Lauro Neiva, 32, Duque de Caxias
Entrada gratuita (retirada de senha 1h antes)
Duração: 45 minutos
Classificação indicativa: 18 anos

FICHA TÉCNICA

Coreografia e performance: Davi Pontes e Wallace Ferreira
Produção executiva: Netto
Coordenação de produção: Rafael Fernandes
Gestão: Quafá Produções
Distribuição internacional: Something Great
Coprodução: 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, Arsenic, Centro de Arte Cênica Contemporânea
Residências artísticas: Festival ImPulsTanz, Festival Internacional de Dança de Viena, Arsenic, Centro de Arte Cênica Contemporânea, Lausanne, tanzhaus nrw, festival Kondenz e La Becque
Assessoria de imprensa: Monteiro Assessoria

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