Carnaval é (e tem) político!

Foto: Fernando Maia / Prefeitura do Rio

Escolas da Baixada homenagearam grandes nomes da política nacional em desfiles marcantes; relembre

Por André Mariz

Se você está cansado de só ver política na Internet e quer ler sobre Carnaval para se distrair, então veio ao lugar… Errado?! Acontece que política e Carnaval são assuntos que se complementam desde os anos de repressão policial às rodas de samba na casa de Tia Ciata. Com o passar do tempo, as escolas de samba e, posteriormente, os desfiles seguem intimamente relacionados aos acontecimentos políticos de cada época, da ditadura, que impõe sua censura aos sambas e enredos e até convence agremiações a aderirem e glorificarem seu discurso, aos enredos pós 1984, que já podem abordar com o devido contexto os “vinte anos que alguém comeu”.

Foto: Acervo Liesa

Mais do que influenciar a festa, fatos políticos históricos e seus personagens costumam aparecer na Sapucaí como parte dos enredos que as escolas apresentam e até mesmo homenageados por eles. Na semana em que o Brasil vive a Apoteose de uma das eleições mais importantes de sua história, o BRAVA BAIXADA relembra três desfiles que retratam importantes figuras políticas e que até hoje são lembrados pelas respectivas agremiações.

Beija-Flor foi campeã com desfile sobre lutas do povo e homenagem a Lula

“Eu quero liberdade, dignidade e união
Fui lata, hoje sou prata
Lixo ouro da região
Chega de ganhar tão pouco
Tô no sufoco, vou desabafaPare com essa ganância, pois a tolerância
Pode se acabar”

O Povo Conta a Sua História: Saco Vazio Não Para em Pé. A Mão que Faz a Guerra, Faz a Paz (Betinho, J.C.Coelho, Ribeirinho e Glyvaldo)

Foto: Guilherme Pinto / O Globo

Em 2003, a Beija-Flor de Nilópolis encerrou sua sequência de quatro vice-campeonatos consecutivos e venceu seu sétimo título. O enredo assinado pela Comissão de Carnaval, composta por Cid Carvalho, Fran Sérgio, Laíla, Shangai e Ubiratan Silva, levou para a avenida as mazelas do povo e suas lutas por dignidade e direitos no Brasil e no mundo. O combate à fome e as desigualdades sociais foram o principal fio condutor do cortejo, que lembrou figuras como Zumbi dos Palmares, Tiradentes e Lampião, episódios históricos como a queda da Bastilha, na França, e exaltou os projetos sociais da própria escola.

No último carro, a Beija-Flor trouxe uma escultura do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que fora eleito no ano anterior e dava início ao seu primeiro mandato. A homenagem trazia uma menção ao programa Fome Zero, uma das principais bandeiras da campanha do antes candidato Lula. Uma curiosidade: no CD dos sambas de enredo de 2003, a faixa da Beija-Flor se encerra com o intérprete Neguinho da Beija-Flor afirmando que “a esperança venceu o medo”, slogan da campanha de Lula, com o coro ao fundo gritando o nome do presidente. A escola foi campeã com um desfile luxuoso, que ainda levou os Estandarte de Ouro de melhor intérprete, melhor ala e revelação.

Assista ao desfile:

A Beija-Flor voltou a ser campeã com um enredo político em 2018, quando apresentou “Monstro É Aquele que Não Sabe Amar – os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu”, com críticas à desigualdade social, corrupção, violência, intolerância e o abandono de crianças pelo estado. O fio condutor do enredo se baseou no livro “Frankenstein”, de Mary Shelley, que completou 200 anos na época.

Grande Rio fez a Coluna Prestes atravessar a Sapucaí

“Pelas trilhas destas terras, destas terras
Explosão de arte e guerra não se encerra
Igualdade em seu pensar
Bolívia, Rússia, China um exílio que ensina
Proporciona um novo lar”

Prestes, o Cavaleiro da Esperança (João Carlos, Carlinhos Fiscal e Quaresma)

Foto: Wigder Frota

Dona de um dos melhores repertórios dos anos 90, a Grande Rio homenageou Luís Carlos Prestes no centenário de seu nascimento, em 1998. O refrão principal do samba foi um dos mais marcantes do ano por trazer uma expressão popular da época: “Ah, eu tô maluco, amor/ Ah, quero reformas já/ Ah, quero paz e amar/ Sou Caxias, vou marchar”.

Prestes foi uma das figuras centrais do movimento comunista brasileiro, tendo uma trajetória marcada pela oposição às estruturas políticas dominantes, pela militância revolucionária e por longos períodos de perseguição, prisão e exílio. O desfile, assinado pelo saudoso Max Lopes, contou a história de Prestes desde o seu nascimento, passando pela marcha da Coluna Prestes, pelas experiências políticas no exterior e pela defesa de reformas sociais.

A apresentação da tricolor de Duque de Caxias contou com uma polêmica devido à participação de Débora Rodrigues, ex-militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e que havia ganhado notoriedade após posar para a revista Playboy. Sua presença desagradou familiares de Prestes e fez com que sua viúva, Maria Prestes, e outros familiares se recusassem a participar do desfile. Dos dez filhos de Prestes, seis desfilaram. A Grande Rio terminou na oitava colocação.

Assista ao desfile:

Inocentes estreou no Acesso A exaltando Brizola e a educação

“Um anjo fez brilhar a luz da esperança
Que batalhou levando fé no futuro das crianças
Educação, prosperidade
É a receita da felicidade”

Do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro, a Inocentes Canta Brizola, a Voz do Povo Brasileiro (Billy County, Ediespuma, Abilio Mestre-Sala, Licinho Jr., Marcelinho Santos e Alex)

Foto: Ricardo Almeida

Em 2009, a Inocentes de Belford Roxo chegou pela primeira vez ao Grupo de Acesso A (hoje chamado de Série Ouro), de onde só sairia para a passagem que teve pelo Grupo Especial, em 2013. Para a estreia, escolheu homenagear Leonel de Moura Brizola, um dos nomes mais marcantes da política nacional, destacando sua trajetória no Rio Grande do Sul, onde nasceu e ascendeu, sua relação com as classes populares, luta contra a ditadura e atuação na educação, especialmente através dos Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs, desenvolvidos em parceria com o educador Darcy Ribeiro. A agremiação destacou ainda seus dois governos no Rio de Janeiro, de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994.

A Inocentes apostou alto, tendo em seu quadro o carnavalesco Fran Sérgio, multicampeão pela Beija-Flor, e o intérprete histórico Dominguinhos do Estácio. No entanto, a Caçulinha da Baixada enfrentou problemas no desfile. Fantasias chegaram com atraso e muitos componentes entraram na Sapucaí com figurinos incompletos. No final, a escola ainda precisou correr para não estourar o tempo máximo de apresentação. Mesmo assim, a Inocentes conseguiu se manter no grupo, onde se estabilizou até chegar ao campeonato em 2012.

Assista ao desfile:

Inocentes de Belford Roxo e Grande Rio ainda têm em comum um enredo sobre outro importante político brasileiro: Assis Chateaubriand. Apesar de mais conhecido como magnata da comunicação, dono dos Diários Associados e fundador da TV Tupi, advogado, escritor e idealizador do MASP, Chatô, como era apelidado, também foi eleito Senador da República pela Paraíba (1952 – 1955) e pelo Maranhão (1955), além de atuar como embaixador do Brasil na Inglaterra (1957 – 1960). Ele foi enredo da Grande Rio em 1999 e da Inocentes em 2007.

Outras escolas da Baixada também já fizeram desfiles em homenagens a políticos brasileiros. Em 2002, a Unidos da Ponte apresentou “De Minas Para o Brasil: Tancredo Neves, o Mártir da Nova República” no antigo Grupo de Acesso A. No mesmo ano e grupo, a Leão de Nova Iguaçu levou pra Sapucaí “Do Esplendor Diamantino aos Sonhos Dourados de Juscelino”. No antigo Grupo de Acesso B, a Independente da Praça da Bandeira desfilou com “Josué de Castro – O Descobridor da Fome no Brasil” em 2005. Em 2020, na atual Série Prata, à época nomeada Grupo Especial da Intendente, o Império da Uva trouxe “Darcy Ribeiro – O Homem Muito Além do Seu Tempo!”. E mais recentemente, em 2026, a Chatuba de Mesquita homenageou Benedita da Silva com “Benedita do Povo”.

André Mariz

André Mariz é jornalista formado pela UFRJ, com passagens por veículos de rádio, TV e Internet, e atualmente trabalha com redação publicitária e marketing. Pesquisa e vivencia as escolas de samba desde os 6 anos de idade. Compositor de samba-enredo e frequentador assíduo de quadras, ensaios e do Setor 3 da Marquês de Sapucaí.


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