“Se a resposta está pronta, por que ainda pensar?” Festival Imagina joga luz sobre o papel da escola diante da Inteligência Artificial 

Foto: Divulgação

Com público superior a mil pessoas, a primeira edição do evento no Parque Madureira discutiu os desafios do pensamento crítico na era das respostas prontas.

“Pesquisa pronta.” “Resumo gerado.” “Texto concluído.” Nunca foi tão fácil encontrar respostas. Se há poucos anos a principal preocupação de pais e educadores em relação à internet era a segurança digital, a chegada da Inteligência Artificial Generativa mudou o eixo do desafio. O debate agora vai além de monitorar o que as crianças acessam: trata-se de entender como o imediatismo das ferramentas tecnológicas está transformando a forma como elas pensam. Com respostas prontas ao alcance de um clique, o risco iminente é o comprometimento do pensamento crítico e da capacidade de reflexão de uma geração inteira.

Antigamente, um trabalho escolar exigia tempo de maturação, busca em diferentes fontes, erro e reescrita. Hoje, uma redação complexa ou uma equação matemática difícil são resolvidas em segundos por plataformas de IA. O grande problema que se desenha não é o plágio em si, mas a perda do processo cognitivo que acontece durante o esforço da pesquisa. Diante desse cenário de facilidades automáticas, surge uma pergunta inevitável: qual passa a ser o verdadeiro papel da escola quando o conhecimento factual parece estar totalmente terceirizado para as máquinas?

Essa reflexão profunda foi o tema central de um dos episódios do podcast oficial do Festival Imagina, que reuniu especialistas para discutir os rumos da educação e da tecnologia. Para Luiza Machado, coordenadora de inovação pedagógica do Elite Rede de Ensino, a resposta para esse dilema não está na proibição das telas, mas em uma mudança estrutural na forma de ensinar. Segundo a especialista, o papel da escola contemporânea precisa deixar de ser o de uma mera transmissora de conteúdos para se consolidar como um espaço de letramento digital, ético e crítico.

Foto: Divulgação

“Eu sempre acreditei que a escola precisa ser um lugar que desperta o aluno para a vida ao redor dele, e mais do que isso, que ensina esse aluno a pensar. A escola não é um lugar de repetição de conteúdo, ela é feita para você conviver, aprender a pensar, criar e desenvolver uma habilidade crítica”, defende Luiza. 

É com essa mentalidade que o Elite, do Grupo Salta Educação, implementou o Dia Lab, um programa pioneiro focado justamente no desenvolvimento dessa consciência tecnológica e letramento em IA. Luiza explica que, hoje, o professor precisa atuar como um “designer de experiências de aprendizagem”. Como as crianças e adolescentes tendem a humanizar as ferramentas de Inteligência Artificial, muitas vezes utilizando chats de texto para desabafar ou buscar conselhos emocionais, o papel do educador é desmistificar o algoritmo. No Dia Lab, os alunos aprendem na prática que a IA não pensa, não tem sentimentos e não é mágica; ela funciona por meio de bancos de dados e probabilidade estatística. 

Uma das abordagens utilizadas para ilustrar esse conceito aos estudantes é a dinâmica da sacola. Ao colocarem termos soltos dentro de um saco e sorteá-los, os jovens percebem que, embora as palavras façam sentido isoladamente, a combinação aleatória pode gerar frases completamente sem nexo. É exatamente assim que a IA opera: conectando dados por proximidade e probabilidade. Compreender esse mecanismo é o que liberta o aluno da ilusão de que a internet está sempre certa, ensinando-o a questionar, revisar e exercer a curadoria do que recebe, habilidades que máquina nenhuma consegue replicar.

O fator humano e a pedagogia do acolhimento

Foto: Divulgação

Complementando essa visão de futuro e autonomia, Matheus Louback , historiador e coordenador de inovação  pedagógica do Grupo Salta Educação, ressalta que o amanhã deve ser encarado sob a ótica do acolhimento e do desenvolvimento humano. Ele defende que, em uma realidade em que a educação por muito tempo operou de forma mecânica, o grande diferencial está na capacidade de criar vínculos duradouros e fortalecer a esperança dos alunos. 

Para ele, o processo de se descobrir e desenvolver as chamadas soft skills (habilidades socioemocionais), muito além do aprendizado puramente técnico, é o que prepara crianças e adolescentes para profissões que ainda nem existem. “Em vez de criar dependência ou proibir o uso de novas mídias, o caminho mais seguro é o letramento digital focado na autonomia”, completa Matheus.

O objetivo final da educação nessa nova era é preparar os jovens para o conceito de lifelong learning, mantendo o desejo de aprender constantemente por conta própria, movidos pela curiosidade e não pela conveniência. Afinal, se a resposta já vem pronta, o verdadeiro valor humano passa a estar na capacidade de formular as perguntas certas. “Ensinar o conteúdo, a ferramenta pode fazer, inclusive eu mesma uso um tutor de inteligência artificial que me ajuda a dar feedback para os meus alunos. Agora, ensinar a pensar, a questionar ou a resolver um problema complexo exige um fator puramente humano”, conclui Luiza.

Do ecossistema digital para as ruas de Madureira

Toda essa discussão provocativa sobre os rumos da inteligência artificial, da inovação e do impacto social saiu do ecossistema digital direto para as ruas de Madureira. No último dia 30 de maio (sábado), o Parque Madureira recebeu a primeira edição presencial do Festival Imagina!, promovido pela ID Cultural, com apoio do Elite Rede de Ensino, e patrocínio do Grupo Salta. O evento consolidou-se como um grande sucesso, reunindo um público superior a 1.000 pessoas. Além do impacto cultural, o festival movimentou a economia local ao gerar mais de 300 empregos diretos e indiretos, somando os esforços da fase de pré-produção e as equipes que trabalharam no dia. Totalmente gratuito, o projeto proporcionou uma imersão que conectou cultura, arte, inovação, esporte e tecnologia, debatendo como a imaginação e as ações do presente moldam o amanhã.

Anuncie no BRAVA!
Entre em contato pelo e-mail comercial@bravabaixada.com.br e peça um orçamento.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *