Mais um importante evento do calendário dos sambistas aconteceu na última semana. Foram lançados os CDs (muito difícil para quem teve infância carnavalesca nos anos 90 e 00 falar “álbum”) do Grupo Especial e da Série Ouro, com as versões definitivas dos sambas-enredo que vão passar na Sapucaí ano que vem. O Brava Baixada ouviu os dois e te conta como ficaram as gravações das escolas da região. Spoiler: temos dois fortes candidatos a Estandarte de Ouro. Os dois álbuns estão disponíveis nas principais plataformas de streaming.
“Vem no balanço do siriá
Marujada e carimbó
Quem ensina é Aguaguara
No curumim vi o futuro no olhar
A Baixada a invocar a força marajoara”
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A Beija-Flor tem um dos melhores sambas de 2027, isso já era sabido. Diante disso, esperava-se um pouco mais de potência na faixa, ainda mais após um ano muito positivo da dupla Ninno e Jéssica Martin. A gravação não é ruim, como se comentou de forma um pouco alarmista pelas redes sociais. A estranheza talvez se dê pelo coro bem mais baixo que nas outras faixas, dando mais destaque aos intérpretes. Estes, por sua vez, cantam juntos durante todo o tempo, diferente do que acontece na maioria das vezes em que há divisão de microfone. Além disso, a escola optou por um andamento um pouco mais acelerado, quase como simulando o clima da avenida.
Fato é que tais escolhas não tiram a beleza do samba nem desvalorizam suas características técnicas. A obra assinada por Marquinhos Beija-Flor, Cláudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Júlio Alves e Léo Freire continua sendo um dos grandes destaques do álbum, trazendo os cantores ainda mais à vontade em seu segundo ano à frente do carro de som de Nilópolis. O refrão principal é um dos grandes hits do ano e tem tudo para impulsionar mais um grande desfile da Beija-Flor. O samba tem nuances melódicas que remetem às obras da própria escola nos anos 90, o que faz todo o sentido, já que a pajé Zeneida, a homenageada, é responsável direta pelo enredo campeão de 1998. Os paralelos com a letra de “Caruanas” também são recorrentes, aumentando ainda mais a nostalgia que a obra imprime.
Mas como nem tudo é saudosismo, a Beija-Flor também aposta mais uma vez na fórmula de um bis pré-refrão e repetição de versos no refrão principal. Uma zona de conforto que vem dando certo há dois anos e vai contribuir para a comunidade “incorporar”, na difícil missão de ser a segunda a desfilar no domingo de Carnaval.
Ouça o samba da Beija-Flor:
Assista ao clipe oficial da Beija-Flor:
“Liberdade ao som do agbê
Liberdade nos palmos deste chão
Meus filhos irão erguer o tempo de reparação
Meus filhos irão erguer um país com a gana
Da força africana e chamar de nação”
Coincidentemente, a Grande Rio é outra escola que aposta em uma atmosfera noventista em seu samba. Se naquela década a escola ainda não tinha o poderio financeiro que a possibilitava disputar títulos, seu repertório é tranquilamente um dos melhores, principalmente na sequência entre 1992 e 1998. A melodia de 2027 bebe desta fonte, sobretudo nos refrãos. O principal, com melodia alongada, remete muito ao samba de 1997, também belíssimo. Mérito dos compositores Deré, Licinho Jr., Robson Moratelli, Rafael Delgado, Igor Federal e Gustavo Clarão.
A gravação da Tricolor de Caxias é uma das melhores do álbum. Anitta, rainha de bateria, começa a faixa cantando o samba acompanhada apenas pelas cordas até o refrão do meio, quando a bateria sobe e entra também o intérprete oficial Ito Melodia, em seu primeiro ano na escola. Ambos vão muito bem. A letra é inspiradíssima, emocionante e muito inteligente, traduzindo de forma poética e compreensível um denso enredo sobre africanos que foram escravizados no Brasil, mas que, depois de conquistarem a liberdade, retornaram à África e se estabeleceram na antiga Costa do Ouro, atualmente Gana, formando uma comunidade conhecida como Tabon.
A melodia ora valente, ora dolente, também contribui para construir um clima emotivo com muita qualidade. A segunda parte do samba, em termos de letra e melodia, é o que há de melhor em um samba-enredo para 2027. A excelente gravação do samba ainda deve fazer com que cresça na opinião pública e pode contribuir para alavancar o carnaval da Grande Rio, elevando-a ao patamar de postulante ao título. Até agora, está fazendo o requisito.
Ouça o samba da Grande Rio:
Assista ao clipe oficial da Grande Rio:
“Tem medo de Anhangá, mas quer fazer cunin
Adora desfrutar de tanto aipim
Se é pra serpentear, tirar o mel da cana
Cacique sucuri ou cobra caninana?”
O divertido refrão do meio da Unidos da Ponte tem mesmo a intenção de trazer todos esses duplos sentidos que você imaginou. O enredo “Tybyras” traz uma temática inédita: a diversidade sexual e de gênero entre os povos indígenas que existia antes da colonização europeia e da homofobia imposta, decorrente do apagamento de sua cultura.
O samba assinado por Cláudio Russo, Silvio Romai, Marquinhos Beija-Flor, Marcelo Borboleta, Jorginho da Flor, Herval Neto, Mateus Pranto, Gabriel Simões, Raphael Gravino e Carlos Kind traz uma característica que é inerente à história da escola: a crítica apresentada de forma muito inteligente e poética. Apesar de ser um manifesto por resistência e respeito, a obra faz isso através de muitas figuras de linguagem e irreverência, junto à uma melodia bastante animada que será grande aliada da Ponte, penúltima a desfilar após uma longa noite na sexta-feira de Carnaval.
Serginho do Porto brilha na gravação, bem como a bateria da azul e branca – há de se ressaltar que toda a produção do álbum da Série Ouro é brilhante, valorizando e elevando todos os 17 sambas.
Ouça o samba da Unidos da Ponte:
“Anarriê! Alavantu!
Zabumbeia mas não faz um sururu
Alavantu! Alavantu! Anarriê!
No arraiá dos Inocentes a sanfona vai gemer”
Sim, ela voltou! Maracanaú está de volta à Série Ouro em mais um “enredo junino”, desta vez desenvolvido pela Inocentes. Depois de Vigário Geral em 2024 e Acadêmicos de Niterói, campeã em 2025, a cidade cearense desembarcou em Belford Roxo e fez, inclusive, a Inocentes optar por uma troca de enredo, após ter inicialmente anunciado uma homenagem ao artista plástico Carybé, que acabou engavetada.
Pela gravação, é possível imaginar que a escola fará jus ao investimento. O samba de Cláudio Russo, Gustavo Clarão, Washington Paz e André Russo é animadíssimo, daqueles que proporcionam à bateria possibilidade de executar diversas bossas em ritmo de forró, baião e por aí vai. Uma receita que funcionou para Niterói em 2025, que foi campeã muito impulsionada pelo “fervo” do samba. A Inocentes pode ir pelo mesmo caminho, almejando se consolidar novamente no grupo após um Carnaval complicado em 2026.
O expoente intérprete Charles Silva valoriza ainda mais o samba, que tem uma letra robusta e foge de lugares comuns. A melodia vai ajudar a escola numa missão diferente da Ponte mas tão difícil quanto. Se a escola de Meriti precisará empolgar um público cansado, a Inocentes vai ter que conquistar um público que ainda estará chegando, mais frio.
Ouça o samba da Inocentes de Belford Roxo:

André Mariz
André Mariz é jornalista formado pela UFRJ, com passagens por veículos de rádio, TV e Internet, e atualmente trabalha com redação publicitária e marketing. Pesquisa e vivencia as escolas de samba desde os 6 anos de idade. Compositor de samba-enredo e frequentador assíduo de quadras, ensaios e do Setor 3 da Marquês de Sapucaí.
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