Aos 10 anos, Felipe Sousa-Lazaballet começou a trabalhar distribuindo panfletos e carregando uma escada usada para instalar anúncios em postes. O dinheiro que ganhava tinha um destino: melhorar as condições da casa onde vivia com a família, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Com o dinheiro que conseguiu juntar, comprou uma bomba d’água para que a família não precisasse mais carregar baldes de um poço próximo. Também ajudou a construir o primeiro banheiro dentro de casa.
Três décadas depois, aquele menino que cresceu em Santa Cruz da Serra acaba de conquistar uma vaga na Câmara dos Representantes da Flórida, nos Estados Unidos. Filiado ao Partido Democrata, Felipe foi eleito nesta terça-feira (3), com 49.752 votos, o equivalente a 62,41% do total, derrotando a republicana Bonnie Jackson na disputa pelo Distrito 42, na região de Orlando. O resultado ainda é considerado preliminar pelas autoridades eleitorais americanas.
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A vitória ganhou repercussão por colocar um brasileiro no Legislativo estadual da Flórida pela primeira vez. Mas, antes da chegada à política americana, a trajetória de Felipe passou por uma infância marcada pela pobreza na Baixada, pela separação da mãe e por 15 anos vivendo sem documentação migratória regularizada nos Estados Unidos.
Uma infância em Santa Cruz da Serra
Felipe nasceu em Duque de Caxias, em 1986, e se mudou com a mãe para Santa Cruz da Serra aos oito anos. A família vivia em uma casa inacabada, sem banheiro interno, energia elétrica ou água encanada. As janelas eram cobertas por plástico, enquanto a rua não tinha pavimentação e apresentava esgoto a céu aberto.
A mãe, empregada doméstica, criou os filhos sozinha. Ela havia estudado apenas até o segundo ano escolar, uma realidade que Felipe costuma mencionar quando fala sobre sua formação.
Em agosto de 2025, ao responder a um questionário da plataforma eleitoral americana Ballotpedia, ele recuperou uma lembrança da infância em Duque de Caxias. A pergunta era simples: qual tinha sido seu primeiro emprego?
Na resposta, contou sobre a distribuição de panfletos, a instalação de anúncios e o dinheiro usado para comprar a bomba d’água. O trabalho durou aproximadamente um ano e permitiu que a família deixasse de carregar baldes diariamente.

O episódio ajuda a dimensionar as condições em que Felipe cresceu. Antes de completar a adolescência, já dividia o tempo entre a infância e a necessidade de contribuir para melhorias básicas da residência.
A viagem aos Estados Unidos e os 15 anos sem documentos
Aos 18 anos, a irmã mais velha de Felipe deixou o Brasil em busca de melhores condições de vida. Anos depois, foi ela quem abriu caminho para que o irmão também emigrasse.
Em 2001, aos 14 anos, Felipe chegou aos Estados Unidos e passou a viver com a irmã na Flórida. A mãe permaneceu no Brasil porque não conseguiu obter o visto americano.
A mudança representou uma nova etapa, mas trouxe outras dificuldades. Felipe entrou no país com visto de turista e permaneceu após o vencimento do documento. Durante aproximadamente 15 anos, viveu sem situação migratória regularizada, enfrentando restrições que afetavam suas possibilidades de estudo e trabalho.
A experiência acabou aproximando o jovem dos movimentos de defesa dos direitos dos imigrantes. Em 2010, participou da Trail of Dreams, mobilização que percorreu o trajeto entre Miami e Washington para reivindicar mudanças nas políticas migratórias americanas.
A caminhada reuniu jovens que haviam chegado aos Estados Unidos ainda crianças e enfrentavam obstáculos para permanecer legalmente no país. Para Felipe, a participação marcou uma fase de atuação pública que antecedeu sua entrada na política eleitoral.
Ele conquistou a cidadania americana em 2021, duas décadas depois de deixar a Baixada Fluminense.
Do ativismo à política na Flórida
Antes de disputar uma eleição, Felipe construiu sua trajetória profissional em organizações comunitárias e no poder público de Orlando.
Um dos momentos dessa atuação ocorreu em 2016, após o ataque à boate Pulse, que deixou 49 mortos. Felipe trabalhou no atendimento aos sobreviventes e familiares das vítimas, ajudando na articulação de serviços de apoio.
Também integrou a administração municipal de Orlando, onde atuou por cinco anos, e assumiu a direção executiva de uma organização sem fins lucrativos voltada ao atendimento de famílias e comunidades.
A experiência acumulada nessas atividades antecedeu sua candidatura à Câmara estadual. Em 2026, concorreu pelo Partido Democrata no Distrito 42, que abrange áreas de Orlando e de outras cidades do Condado de Orange.
Na disputa, enfrentou Bonnie Jackson, candidata do Partido Republicano, e conquistou 62,41% dos votos.
O que a infância na Baixada tem a ver com suas propostas?
Uma das questões mais interessantes da trajetória de Felipe está na relação entre suas experiências pessoais e as propostas apresentadas durante a campanha.
No questionário do Ballotpedia, ele apontou a moradia acessível como uma de suas principais prioridades. Defendeu a preservação de recursos públicos destinados à habitação e medidas de proteção aos inquilinos diante do aumento dos custos de vida na Flórida.
Ao ser perguntado sobre qual seria seu primeiro projeto de lei, respondeu que pretendia atuar na proteção e na utilização dos recursos do Sadowski Housing Trust Fund, fundo estadual destinado a programas habitacionais.

A proposta chama atenção quando colocada ao lado de sua história em Santa Cruz da Serra, onde cresceu numa casa sem estrutura básica. A semelhança entre a experiência familiar e a pauta defendida na campanha é evidente, embora não seja possível afirmar que aquela vivência tenha determinado sua posição sobre habitação.
Na educação, a ligação é mais direta. Felipe afirmou ao Ballotpedia que a escolaridade limitada da mãe influenciou seu compromisso com a ampliação do acesso ao ensino.
Entre as medidas defendidas estão o financiamento das escolas públicas, a valorização dos professores e a ampliação de oportunidades educacionais. O acesso à saúde, incluindo atendimento médico e serviços de saúde mental, também integra sua plataforma política.
Essas propostas fazem parte de uma agenda mais ampla, que inclui direitos dos imigrantes, proteção ambiental e medidas para reduzir o custo de vida.
Uma história que começou na Baixada Fluminense
A eleição de Felipe Sousa-Lazaballet é um acontecimento da política americana, mas sua biografia também conta parte da história de Duque de Caxias.
A infância em Santa Cruz da Serra, o trabalho precoce, a dificuldade de acesso a serviços básicos e a escolaridade limitada da mãe são experiências que ajudam a compreender o ambiente em que cresceu, antes de deixar o Brasil.
Ao longo da campanha, Felipe apresentou a própria trajetória como parte de sua identidade política. Em suas declarações, relacionou a experiência como imigrante e as dificuldades enfrentadas pela família ao interesse em ampliar oportunidades para outras pessoas.
Agora, eleito para representar o Distrito 42 da Flórida, terá a oportunidade de transformar parte dessas propostas em iniciativas legislativas. A aprovação delas, porém, dependerá das negociações e votações no Parlamento estadual.
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