Com 123 filmes e entrada gratuita, evento acontece de 15 a 24 de outubro, em diferentes espaços do Rio, e reúne obras que discutem questões ambientais, sociais e culturais.
A Baixada Fluminense estará representada na 6ª Mostra do Filme Marginal, que acontece de 15 a 24 de outubro, no Rio de Janeiro. Três produções ligadas à região integram a programação: KMD5, Windows 51 e Cartas pela Paz. Os filmes abordam temas como memória cultural, alcoolismo, violência e direitos humanos, a partir de experiências e personagens das periferias.
Criada em 2017, a Mostra do Filme Marginal é dedicada à divulgação do cinema independente, com atenção a produções que abordam questões sociais, políticas e culturais pouco representadas no circuito comercial. Nesta edição, o evento reúne 123 filmes nacionais e internacionais, entre curtas, médias e longas-metragens, além de debates e encontros com realizadores. Toda a programação é gratuita.
Com o tema “Cinema e Emergência Ambiental: Imagens de um Futuro Possível”, a mostra propõe reflexões sobre a crise climática e seus impactos na sociedade. Racismo ambiental, direito à terra, moradia, direitos indígenas, feminismo e diversidade sexual estão entre os assuntos abordados pelas produções selecionadas.

Histórias da Baixada nas telas
Dirigido por Azis Gabriel, o documentário KMD5 recupera a trajetória de um grupo que ajudou a consolidar o reggae em Belford Roxo nas décadas de 1980 e 1990. Com entrevistas e imagens de arquivo, o filme de 24 minutos e 57 segundos mostra como a banda misturou reggae, rock, ritmos afro-brasileiros e dub jamaicano para transformar experiências da periferia em música e crítica social. Integrantes do grupo passaram posteriormente por bandas como O Rappa e Cidade Negra.
Também ligado a Belford Roxo, Windows 51, de Sandro Garcia, parte das memórias pessoais do cineasta para abordar o alcoolismo na periferia. Filmado no município, o documentário de 15 minutos acompanha José Inácio da Silva Filho, padrinho do diretor. Garcia também é fundador do Coletivo BaixadaCine e do Cineclube Velho Brejo, iniciativas voltadas à produção e à democratização do acesso ao audiovisual na região.
Já Cartas pela Paz, dirigido por Mariana Reade, Patrick Zeiger e Thays Acaiabe, apresenta o olhar de cinco crianças moradoras de favelas sobre a violência armada e as operações policiais no Rio de Janeiro. Parte do elenco mora e estuda em municípios da Baixada Fluminense. No documentário de 26 minutos, os participantes escrevem cartas reivindicando direitos como educação, lazer e segurança.

Mostra ocupa espaços culturais do Rio
O Cinema Nosso, na Lapa, será o principal ponto de encontro da 6ª Mostra do Filme Marginal. As exibições também acontecerão na Arena Dicró, na Penha Circular; no Galpão Bela Maré, na Maré; nas Casas Casadas e no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), em Laranjeiras; e no Cinema de Garagem, em Anchieta.
A programação passa ainda pela Casa Marx e pelo MUCA, na Lapa; pela Escola Clóvis Monteiro, em Manguinhos; pelo IFCS/UFRJ, no Centro; pela Sala Glauber Rocha, do Museu da Imagem e do Som, na Praça XV; e pela Sala Mário Tavares, do Theatro Municipal.
Além das sessões, haverá debates e conversas com cineastas. Parte das exibições contará com recursos de acessibilidade, como audiodescrição, legendas descritivas e Libras.

Cinema independente e diversidade
A abertura da mostra terá a estreia brasileira de Retorno a Fukushima, documentário do diretor belga Thomas Licata sobre a vida na cidade japonesa de Namie, mais de uma década após o desastre nuclear de 2011.
Entre os outros destaques estão Samba Infinito, de Leonardo Martinelli, que estreou em Cannes; Proteção, do cineasta Alberto Sena, de São Gonçalo; e Onde Estamos Seguros, de Thais Scabio e Gilberto Caetano.
Desde sua criação, em 2017, a Mostra do Filme Marginal busca ampliar o espaço para produções independentes e narrativas das periferias. Na primeira edição, foram 36 filmes inscritos. Neste ano, o evento recebeu 356 inscrições, das quais 123 foram selecionadas. A seleção dos filmes foi realizada pela curadoria formada por Leila Xavier, Milena Manfredini, Rosa Miranda, Rosy Nascimento e Uilton Oliveira.
“A mostra existe para promover a difusão do audiovisual independente, abrir caminhos, dar visibilidade e fortalecer narrativas que a sociedade muitas vezes tenta invisibilizar. É uma celebração da diversidade e da potência das vozes de nossas periferias”, afirma Uilton Oliveira, idealizador do evento.
“Entendemos o cinema como linguagem crítica capaz de dar visibilidade às populações que vivem na linha de frente dos impactos ambientais”, afirma a curadora Leila Xavier.
A 6ª Mostra do Filme Marginal é realizada pela Corpo Fechado, com apoio do Pró-Carioca Audiovisual 2026, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), RioFilme.
Representantes da Baixada
- KMD5
24’57”
Direção: Azis Gabriel
O documentário traz à tona uma memória viva da cultura periférica, da música e das raízes que moldaram gerações de músicos. Com entrevistas e imagens raras de arquivo, o filme resgata o legado da KMD5, grupo fundamental para o surgimento e consolidação do reggae em Belford Roxo nos anos 80 e 90. Misturando reggae, rock, ritmos afro-brasileiros e dub jamaicano, a banda transformou as experiências periféricas dos integrantes da banda em música e denúncia social, abrindo caminhos para diversos artistas da Baixada Fluminense. Seus participantes integraram depois grupos como o Rappa e o Cidade Negra, crias das referências do pioneiro KMD5.
Trailer:
- WINDOWS 51
15 min
Documentário
Direção, Roteiro e Produção Geral: Sandro Garcia
Sinopse: Das janelas de minha casa, eu vejo tudo. A casa que eu nasci, minha rua e José Inácio da Silva Filho, meu padrinho alcoólatra.
Apresentando: José Inácio da Silva Filho
Uma das vozes mais ativas do cinema periférico contemporâneo, Sandro Garcia é cineasta belforroxense e educador popular, idealizador e fundador do Coletivo BaixadaCine, Cineclube Velho Brejo, coordenador da Meio Filmes. Atua no eixo de produção, exibição e formação cinematográfica com foco na democratização do acesso e arte-educação. Desempenha um papel fundamental na descentralização e democratização do audiovisual na Baixada Fluminense, utilizando as telas para dar visibilidade à identidade e às vivências da periferia. Em WINDOWS 51, rodado em Belford Roxo, ele aborda o problema do alcoolismo na periferia, apresentando os desafios de seu próprio tio.
- CARTAS PELA PAZ
26 min
Direção: Mariana Reade, Patrick Zeiger, Thays Acaiabe
“Parem de nos matar”, pede Luiz Fernando, de 14 anos, em sua carta endereçada ao STF. Neste filme-carta, ele e outras quatro crianças moradoras de favelas reivindicam o direito de brincar e estudar, revelando seus sonhos e medos, em meio às operações policiais no Rio de Janeiro. A partir do olhar infantil, Cartas pela Paz discute a política de segurança pública do estado.
O filme aborda direitos humanos, proteção da infância e desigualdade social, refletindo sobre os impactos da violência armada e das políticas de segurança pública em comunidades periféricas. A partir da perspectiva de crianças moradoras de favelas, a obra discute racismo estrutural, exclusão social e o direito à vida, à educação, ao lazer e à convivência segura, promovendo uma cultura de paz e justiça social. Parte do elenco reside e estuda em municípios da Baixada Fluminense.
Trailer:
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