Mãe solo de três filhos, Isabela Beatriz Rodrigues segurou o jaú junto à varanda e abriu caminho para que trabalhadores escapassem do equipamento durante rajadas que ultrapassaram 100 km/h
As imagens de três pintores em um jaú balançando violentamente no alto de um prédio da Barra da Tijuca correram o país depois do forte vendaval que atingiu o Rio de Janeiro no dia 29 de julho. Por trás do desfecho feliz daquela cena de aflição está uma mulher da Baixada Fluminense. Ela é Isabela Beatriz Rodrigues, moradora de Parada Morabi, em Duque de Caxias.
Empregada doméstica, mãe solo de três filhos e praticante de capoeira, Isabela Beatriz estava trabalhando em um apartamento do condomínio Orange Bali, no complexo Barra Bali, quando percebeu que a situação dos pintores havia se tornado perigosa. O andaime suspenso, conhecido como jaú, era empurrado pelas fortes rajadas e batia contra a fachada do edifício. Do interior do apartamento, Isabela acompanhava a movimentação. “Fiquei superpreocupada vendo o andaime batendo contra a parede. Aquela situação me assustou bastante”, recorda.

O susto, no entanto, não a impediu de agir. Isabela Beatriz percebeu que teria poucos segundos quando o equipamento se aproximasse novamente da varanda. “Minha preocupação era pensar rápido no que fazer”, conta. Foi então que a empregada doméstica tomou a decisão que ajudaria a mudar o destino dos três trabalhadores. Na varanda, esperou a aproximação do jaú, segurou o equipamento e orientou um dos pintores a pular para dentro. A partir da entrada do primeiro trabalhador, os homens conseguiram se ajudar até que os três estivessem em segurança.
Somente depois do resgate Isabela sentiu o impacto emocional do que havia acabado de acontecer. “Senti tranquilidade, mas fiquei me tremendo um pouco”, lembra. Os três trabalhadores estavam assustados e demonstraram gratidão pela ajuda. Em meio à tensão daquele momento, segundo Isabela, ainda se mostraram preocupados com a sujeira provocada ao entrarem no apartamento. De volta para casa, uma mãe de três filhos. Quando deixa o trabalho e retorna à Baixada Fluminense, a mulher que enfrentou uma situação de emergência a dezenas de metros do chão volta a uma rotina bastante diferente.
Isabela cria sozinha Ryan Rodrigues, de 13 anos, Igor Rodrigues, de 11, e Rayane Rodrigues, de 9 anos. Também encontra na capoeira uma atividade importante para enfrentar as pressões do cotidiano. “Ela me faz esquecer por algum momento dos problemas vividos”, explica. A mesma mulher que demonstrou força para segurar o equipamento durante o vendaval tem planos de conquistar melhores oportunidades profissionais. Isabela gostaria de se especializar nas áreas de Técnico em Necropsia ou Farmácia, ou encontrar outra formação que possa aumentar sua renda.
O objetivo é bastante concreto. Isabela quer garantir as necessidades dos filhos, pagar a casa onde vive e conseguir concluir a obra do imóvel. A repercussão do episódio revelou os momentos de desespero vividos pelos três pintores. A história de Isabela acrescenta outro personagem àquelas imagens que é uma trabalhadora da Baixada Fluminense que saiu de casa para mais um dia de serviço e, diante de três pessoas em perigo, não virou as costas. Com apenas 1,50 metro de altura e nenhuma preparação profissional para salvamentos, Isabela fez o que estava ao seu alcance. E foi justamente o suficiente para ajudar três homens a voltarem para as suas famílias em segurança.
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