História de Duque de Caxias: dos antigos caminhos da Baixada à cidade industrial

Duque de Caxias se tornou município em 1943, mas sua história começa muito antes disso. O território que hoje abriga uma das maiores cidades da Baixada Fluminense guarda vestígios de ocupação humana de cerca de quatro mil anos e passou, ao longo dos séculos, por transformações que envolveram rios e portos, fazendas, escravidão, ferrovia, migração e industrialização.

Antes mesmo de existir uma cidade chamada Caxias, lugares como São Bento e Pilar já faziam parte da história do Recôncavo da Guanabara. Mais tarde, a chegada do trem mudou o eixo de ocupação da região, Merity deu lugar a Caxias e o crescimento acelerado do século XX abriu caminho para a emancipação.

Uma história que começou muito antes de Caxias

Um dos registros mais antigos de ocupação humana conhecidos no atual território de Duque de Caxias está no Sambaqui de São Bento. Pesquisas arqueológicas situam o sítio em aproximadamente quatro mil anos antes do presente.

Escavações realizadas em 2010 encontraram estruturas funerárias, incluindo dois enterramentos masculinos, além de artefatos. O sítio é uma evidência de que a história da ocupação desse território é muito anterior à chegada dos portugueses.

Há um cuidado importante, porém. Não existem evidências suficientes para atribuir diretamente o Sambaqui de São Bento aos Tupinambás, como algumas narrativas locais fazem. Os grupos responsáveis pela formação dos sambaquis são identificados arqueologicamente como sambaquieiros, e estabelecer uma ligação direta com povos registrados séculos depois exige outras evidências.

São Bento, Pilar e a ocupação colonial

Com a colonização portuguesa, a partir do século XVI, as terras que atualmente formam Duque de Caxias integravam uma área muito mais ampla do Recôncavo da Guanabara. As fronteiras municipais que conhecemos hoje simplesmente não existiam.

São Bento é um dos lugares onde diferentes períodos dessa história se encontram. Monges beneditinos adquiriram terras na região em 1591 e ampliaram posteriormente suas propriedades. A Fazenda de São Bento desenvolveu atividades agrícolas e esteve inserida em uma economia baseada também no trabalho de pessoas escravizadas.

Outro núcleo importante foi Nossa Senhora do Pilar do Iguaçu.

Hoje conhecida principalmente pela histórica Igreja de Nossa Senhora do Pilar, a região tinha uma função muito mais ampla. Pilar estava conectado a fazendas, rios, portos e caminhos utilizados para transportar pessoas e mercadorias entre a Baía de Guanabara e o interior.

Foto: Reprodução

Antes dos trilhos e das grandes rodovias, eram os rios que ajudavam a organizar o território.

Rios como Iguaçu, Pilar, Meriti e Sarapuí funcionavam como vias de circulação. Por eles e pelos caminhos terrestres ligados aos portos passavam alimentos, madeira, açúcar, produtos importados, pessoas livres e escravizadas e mercadorias relacionadas às rotas que conectavam o Rio de Janeiro ao interior.

A Baixada, portanto, estava longe de ser apenas uma área entre a cidade do Rio e outras regiões. Era parte das redes econômicas que abasteciam e conectavam diferentes pontos do Recôncavo.

A escravidão também faz parte dessa história

A história colonial de Duque de Caxias não pode ser contada apenas pelas antigas fazendas, igrejas e proprietários.

Pesquisas sobre o Recôncavo da Guanabara revelam a presença fundamental de africanos e afrodescendentes na formação da região, seja no trabalho agrícola, no transporte, nas atividades comerciais ou nas relações sociais construídas durante o período escravista.

Um caso documentado na freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Iguaçu ajuda a revelar a complexidade daquela sociedade.

Luciano Gomes Ribeiro, identificado nas fontes como pardo, passou pela escravidão, conquistou a liberdade e posteriormente se tornou senhor de engenho. Segundo pesquisa publicada em 2025 pelos historiadores Roberto Guedes e Moisés Peixoto Soares, ele chegou a possuir 155 pessoas escravizadas.

A trajetória mostra como liberdade, escravidão, cor e poder podiam se combinar de maneiras complexas na sociedade daquele período.

A ferrovia muda o rumo da região

No século XIX, uma transformação começaria a deslocar o centro de gravidade do território: a ferrovia.

A estação de Merity, inaugurada em 1886, estimulou a formação de um núcleo urbano ao seu redor. Comércio, circulação de trabalhadores e, posteriormente, loteamentos passaram a ganhar espaço em uma região antes muito mais dependente dos rios.

É justamente desse núcleo de Merity que surgiria o centro da atual Duque de Caxias.

Aqui existe uma confusão comum. A Merity ferroviária que deu origem ao centro de Caxias não deve ser confundida com São João Batista de Meriti, que seguiria outra trajetória administrativa e mais tarde formaria o município de São João de Meriti.

Nas primeiras décadas do século XX, o núcleo em torno da estação crescia e começava a assumir uma identidade própria.

Uma das histórias mais conhecidas da cidade afirma que moradores trocaram, em 6 de outubro de 1930, a placa “Merity” da estação por outra com o nome “Caxias”. O episódio faz parte da memória local, mas os detalhes da troca não possuem, até o momento, comprovação documental suficiente para serem apresentados da mesma maneira que um ato oficial.

O que está documentado é que, em 14 de março de 1931, um decreto estadual criou oficialmente o distrito de Caxias.

Por que a cidade se chama Duque de Caxias?

O nome é uma homenagem a Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, militar que se tornou uma das principais figuras do Império brasileiro.

Mas há uma curiosidade importante nessa história.

É comum ouvir que o Duque de Caxias nasceu na própria cidade. A afirmação é imprecisa porque o município sequer existia em 1803, ano de seu nascimento.

Luís Alves nasceu no Porto da Estrela, em um território cuja organização administrativa era completamente diferente da atual. Partes daquela região seriam posteriormente incorporadas a Duque de Caxias, o que ajuda a explicar a associação geográfica.

Por isso, dizer simplesmente que ele “nasceu em Duque de Caxias” significa aplicar ao início do século XIX fronteiras municipais criadas muito tempo depois.

A emancipação de Duque de Caxias

O crescimento do distrito se acelerou nas primeiras décadas do século XX.

Loteamentos, comércio, pequenas indústrias e a chegada de novos moradores transformavam rapidamente uma área que ainda pertencia a Nova Iguaçu. Ao mesmo tempo, começavam a se consolidar interesses políticos próprios.

Em 31 de dezembro de 1943, durante o Estado Novo, foi criado o município de Duque de Caxias.

A emancipação, portanto, não surgiu de um único acontecimento. Foi resultado de décadas de mudanças econômicas, urbanas e políticas, embora a decisão institucional tenha ocorrido dentro do contexto autoritário do governo de Getúlio Vargas.

Naquele momento, a cidade ainda estava longe das dimensões que alcançaria nas décadas seguintes.

Em 1940, a região tinha 28.328 habitantes. Em 1950, já eram 92.459. Dez anos depois, a população chegaria a 241.026 pessoas.

Entre 1950 e 1960, o crescimento foi de aproximadamente 161%.

FNM e REDUC transformam Duque de Caxias

A explosão populacional aconteceu ao mesmo tempo em que Duque de Caxias ganhava importância no projeto de industrialização brasileiro.

Em Xerém, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) marcou uma nova fase. A implantação da fábrica começou nos anos 1940 e transformou uma área até então predominantemente rural em espaço industrial e operário.

Fábrica Nacional de Motores – Xerém – anos 1950.

A FNM não significou apenas a chegada de uma fábrica. Em torno dela foram construídas relações de trabalho, moradia, formação profissional e sociabilidade que deixaram marcas profundas em Xerém.

Outro momento decisivo ocorreu em 1961.

Em 9 de setembro daquele ano entrou em operação a Refinaria Duque de Caxias, a REDUC, em Campos Elíseos. O empreendimento reforçou a posição do município na economia nacional e ajudou a reorganizar empregos, infraestrutura e ocupação urbana.

A industrialização, entretanto, conviveu com uma contradição que acompanharia boa parte da expansão da cidade: enquanto grandes projetos estratégicos eram instalados em Caxias, muitos bairros cresciam sem saneamento, pavimentação e outros serviços públicos na mesma velocidade.

Uma cidade construída por migrantes e trabalhadores

O crescimento de Duque de Caxias também foi resultado de grandes movimentos migratórios.

A proximidade com a cidade do Rio de Janeiro, a possibilidade de comprar terrenos relativamente baratos e a expansão do mercado de trabalho atraíram moradores de outras partes do estado e do país, com presença expressiva de migrantes nordestinos.

Em muitas áreas, o crescimento seguiu uma fórmula característica da periferização metropolitana: terrenos mais baratos, pagamento parcelado e casas construídas aos poucos pelos próprios moradores.

A cidade crescia rapidamente, mas a infraestrutura pública nem sempre acompanhava esse ritmo.

Rodovias também mudaram a relação de Caxias com a Região Metropolitana. A Washington Luís, a Presidente Dutra e, mais tarde, a Linha Vermelha reforçaram a posição estratégica do município para circulação de trabalhadores, mercadorias e atividades industriais.

Por isso, definir historicamente Duque de Caxias apenas como uma “cidade-dormitório” deixa de fora uma parte importante de sua trajetória. Embora muitos moradores tenham trabalhado, e ainda trabalhem, fora do município, Caxias desenvolveu indústria, comércio, serviços e centralidades econômicas próprias.

Política, cultura e identidade

O crescimento acelerado também influenciou a política local.

Um dos personagens mais conhecidos dessa história é Tenório Cavalcanti. Com sua capa preta e a famosa submetralhadora apelidada de “Lurdinha”, ele construiu uma imagem que misturava liderança popular, violência, favores e atuação institucional.

Tenório ganhou projeção em uma cidade onde muitos moradores ainda tinham acesso precário a serviços públicos. Sua trajetória ajuda a compreender uma época em que relações pessoais e lideranças políticas funcionavam frequentemente como intermediárias entre a população e o Estado.

Mas a história caxiense não se resume à política institucional.

Em 1921, antes mesmo da emancipação, Armanda Álvaro Alberto fundou em Merity a Escola Proletária de Merity, posteriormente conhecida como Escola Regional de Meriti. A experiência, ligada aos debates de renovação educacional do período, combinava educação, saúde, alimentação e participação comunitária.

Na década de 1940, outro personagem fundamental chegou à cidade: Joãozinho da Gomeia. O sacerdote do Candomblé Angola estabeleceu seu terreiro em Caxias e alcançou projeção nacional, tornando-se uma referência para a história das religiões afro-brasileiras e da cultura negra.

Décadas depois, associações de moradores, movimentos negros, organizações religiosas, trabalhadores, catadores de Jardim Gramacho, movimentos culturais e familiares de vítimas da violência também participariam das disputas por direitos e da construção da identidade local.

Duque de Caxias para além dos estereótipos

Ao longo do século XX, Duque de Caxias e a Baixada Fluminense passaram a aparecer frequentemente no noticiário nacional associadas à pobreza e à violência. Essa imagem ganhou força principalmente entre as décadas de 1960 e 1980.

A própria história da cidade, porém, mostra por que essa definição é insuficiente.

Caxias reúne vestígios arqueológicos milenares, antigos caminhos coloniais, patrimônio religioso, experiências pioneiras de educação, história operária, industrialização, cultura negra, movimentos sociais e uma população formada por sucessivas ondas migratórias.

Hoje, lugares como o Museu Vivo do São Bento, o Sambaqui de São Bento, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar e o Terreiro da Gomeia ajudam a preservar diferentes partes dessa trajetória.

Conhecer a história de Duque de Caxias significa justamente olhar para essas camadas. Antes da cidade industrial, existiram rios e portos. Antes de Caxias, existiu Merity. Antes da emancipação de 1943, já havia séculos de ocupação e transformações naquele território.

A história da cidade não começa com a criação do município. A emancipação é apenas um dos capítulos de uma trajetória muito mais antiga.

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