Durante quase dez anos, Ana Paula Morais esteve à frente de uma banda de rock, tocando em bares e eventos da Baixada Fluminense. Acostumada às guitarras e às referências internacionais, a cantora e compositora começou a perceber que suas novas músicas pediam outros caminhos. Foi assim que o samba e a música popular brasileira ganharam espaço em seu repertório, dando início a uma nova fase da carreira.
A mudança não significou abandonar o rock, mas encontrar uma maneira de reunir as influências que fizeram parte de sua formação. Essa trajetória foi o tema do episódio de estreia da Rádio BXD, programa do BRAVA BAIXADA apresentado por Lucas Gama que abre espaço para artistas e produções culturais da Baixada Fluminense.
A relação de Ana Paula com a música começou dentro de casa. Seu pai, Paulinho, tocava violão e ouvia bandas como Legião Urbana e Guns N’ Roses. O avô também tinha instrumentos, que despertaram a curiosidade da menina. Em uma dessas descobertas, ela acabou quebrando uma guitarra do pai ao tentar pegá-la em cima do guarda-roupa. Ficou de castigo, mas, pouco tempo depois, ganhou seu próprio instrumento.
Aos dez anos, recebeu um pandeiro, influenciada pela cantora Ana Carolina, cujos DVDs costumava assistir. O repertório musical da família também incluía Pink Floyd e Pearl Jam, apresentados pelo tio Sandro e por um amigo do pai. A admiração por Pink Floyd, associada ao interesse pela psicologia e pela leitura de Freud, acabou influenciando até seu trabalho como tatuadora.
A primeira composição surgiu por volta dos 15 anos. Curiosamente, não foi um rock, mas um rap sobre esporte.
Quase uma década dedicada ao rock
A primeira banda nasceu durante um show de talentos da escola. Ana Paula encontrou uma bateria guardada em uma sala do grêmio estudantil e decidiu formar um grupo. A intenção inicial era tocar guitarra, mas, como ninguém queria assumir os vocais, ela acabou ficando com o microfone. “Eu vou cantar então”, relembra.
O que começou como uma apresentação escolar se transformou em um projeto que durou quase dez anos. Nesse período, a banda passou por pequenos pubs e chegou a se apresentar duas vezes no Rock 80, experiência que impressionou Ana Paula pelo tamanho do palco e pela estrutura de som.
Outro projeto que ganhou espaço na cena local foi o Halloween da banda. Idealizado pela produtora Júlia Pontes, o evento teve três edições e apresentava músicas pop em versões de rock.

Apesar da identificação com o gênero, Ana Paula começou a sentir necessidade de explorar outras possibilidades. Algumas composições já não combinavam com a proposta da banda. Com o violão em mãos, passou a buscar novas referências e voltou a ouvir artistas que fizeram parte de sua infância.
Foi nesse processo que o samba e a MPB se aproximaram de sua produção autoral. “Eu tô tentando focar no samba e no MPB porque eu tenho a tendência pro rock já”, explica.
Desde o ano passado, a artista trabalha em músicas que combinam elementos dos três gêneros. A mudança também representa um desafio diante de um público acostumado a vê-la cantando rock. “As pessoas já esperam rock”, observa.
Entre suas principais referências estão Ana Carolina, Maria Rita e Marisa Monte. Mais do que a interpretação, Ana Paula admira a capacidade dessas artistas de cantar, compor e tocar instrumentos, características que também procura desenvolver em sua trajetória.
Mulheres na música e novos projetos
A presença feminina na música é uma questão recorrente na experiência de Ana Paula. Para ela, as mulheres enfrentam cobranças constantes, inclusive em relação à maneira de cantar e interpretar.
“A gente escuta muito vozes masculinas e às vezes o erro também é querer interpretar a voz masculina”, afirma.
A cantora foi selecionada para um curso de formação de cantores ligado à Ação da Cidadania, com apresentação prevista para o fim do ano. A experiência, segundo ela, tem proporcionado um ambiente de aprendizado e apoio entre os participantes.
Além da carreira musical, Ana Paula administra um estúdio de tatuagem. As duas atividades fazem parte de sua rotina profissional e ajudam a manter seus projetos. “Uma coisa sustenta a outra”, resume.
O interesse pela gestão também aparece na maneira como organiza a carreira, conciliando a produção artística com o trabalho à frente do próprio negócio.
A música produzida na Baixada
Ao falar sobre a cena cultural da Baixada Fluminense, Ana Paula recorda os shows de tributo à Legião Urbana que acompanhava na Arena Pérola Negra. Na época, sonhava em subir ao palco para abrir aquelas apresentações.
A experiência com o rock na região também permitiu conhecer diferentes bandas e músicos. Segundo ela, há uma cena ativa na Baixada, embora a presença masculina ainda seja predominante entre os grupos.
Para Ana Paula, fortalecer a produção local passa por ampliar os espaços de apresentação e dar visibilidade a artistas de diferentes estilos. Se organizasse um festival, reuniria nomes como a cantora Leti e a banda Stay Safe, além de outros músicos da região.
Ela também menciona Tony e a amiga Natália, baterista e cantora que participará da produção da percussão de suas novas músicas. Entre as iniciativas voltadas à presença feminina, destaca a Pink Punk Party, encontro da cena underground que reúne bandas e artistas mulheres.
A valorização das referências brasileiras aparece como um dos principais pontos dessa nova fase. Quando questionada sobre uma cantora que todo morador da Baixada deveria conhecer, Ana Paula responde sem hesitar: “Gal”, em referência a Gal Costa.
Para quem cresce ouvindo rock internacional e procura construir uma identidade musical própria, a cantora defende a importância de conhecer outras sonoridades e transformar essas influências em uma produção conectada à cultura brasileira.
A trajetória de Ana Paula mostra como a formação musical de uma artista pode atravessar diferentes estilos sem perder suas referências. Do rock ouvido em família aos novos trabalhos com samba e MPB, ela segue construindo um repertório que reúne experiências pessoais e a vivência na cena cultural da Baixada.
A entrevista completa está disponível no episódio piloto da Rádio BXD, apresentado por Lucas Gama. Quem quiser acompanhar a carreira dela mais de perto pode seguir pelo perfil @anapaulamoraiscantora.
Entrevista completa
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